Falar sobre sexualidade continua sendo, paramuitos, um desafio permeado por silêncios, constrangimentos e preconceitos.Mesmo em tempos de maior acesso à informação, a sexualidade ainda é tratadacomo um tema moral, e não como um aspecto natural da vida humana. No Brasil,pesquisas do Datafolha (2022) mostram que mais de 60% dos adultos afirmamsentir vergonha de conversar sobre sexo com familiares ou profissionais desaúde, revelando o quanto os tabus culturais e religiosos ainda moldam aforma como o tema é abordado.
A sexualidade é uma dimensão complexa,que envolve corpo, afeto, identidade, prazer e relações sociais. Reduzi-laapenas ao ato sexual é um equívoco que empobrece a compreensão da experiênciahumana. Freud já afirmava, no início do século XX, que a sexualidade é umaforça estruturante da personalidade, e não apenas uma função biológica (Freud,1905/2016). Hoje, a psicologia reconhece que o modo como cada indivíduo vivesua sexualidade reflete a interação entre fatores psicológicos, culturais ehistóricos. Nesse sentido, o papel do psicólogo é essencial para acolher,compreender e desconstruir discursos normativos que geram sofrimentopsíquico.
Os tabus sobre sexualidade têm raízesprofundas na história da cultura ocidental, marcada por séculos de repressão eculpa. Ainda que o debate tenha avançado, a educação sexual segue sendo umdos temas mais censurados em escolas e famílias brasileiras (UNESCO, 2021).Essa ausência de diálogo favorece o surgimento de desinformação, preconceitos ecomportamentos de risco. O psicólogo, ao trabalhar com indivíduos ou grupos,precisa reconhecer o impacto desse silêncio e atuar na promoção de espaçosseguros para o diálogo, baseados em respeito e acolhimento.
No contexto clínico, muitos pacientes trazem àterapia dúvidas, culpas e conflitos relacionados à identidade de gênero,orientação sexual ou desempenho sexual, frequentemente marcados porexperiências de repressão e julgamento. Cabe ao psicólogo adotar uma escutalivre de moralismos, promovendo um ambiente de confiança e possibilitando aressignificação de crenças negativas. Essa postura ética e empática é uminstrumento de libertação subjetiva, que ajuda o paciente a integrar suasexualidade de forma saudável e coerente com seu próprio desejo.
Além do trabalho individual, o psicólogotambém tem papel social e político no enfrentamento dos preconceitosestruturais. Isso inclui combater discursos patologizantes — como os queainda associam diversidade sexual a desvio ou doença — e promover práticaseducativas que valorizem a diversidade e o respeito. O Conselho Federal dePsicologia (CFP, 2018) é claro ao afirmar que qualquer tentativa de “cura” dahomossexualidade ou da transexualidade viola princípios éticos da profissão.Assim, o compromisso do psicólogo deve ser com a defesa dos direitos humanose da liberdade sexual, compreendendo que o sofrimento psíquico não está naorientação ou identidade, mas na discriminação e no estigma social.
É também papel do psicólogo contribuir para o desenvolvimentode uma cultura de educação sexual que vá além da prevenção de riscos. Falarsobre sexualidade é falar sobre autoestima, prazer, consentimento e autonomia.A educação sexual é, portanto, uma estratégia de promoção da saúde mental, poisfortalece a capacidade das pessoas de se relacionarem de forma consciente erespeitosa consigo mesmas e com os outros.
Asexualidade não é um problema a ser resolvido, mas uma expressão vital dasubjetividade humana. Superar o tabu exige conhecimento, empatia e escuta —pilares do fazer psicológico. Quando o psicólogo se coloca como facilitadordesse diálogo, contribui não apenas para o bem-estar individual, mas para umasociedade mais livre, plural e saudável emocionalmente.