Na prática clínica, o psicólogo sedepara cada vez mais com pacientes em uso de medicamentos psicotrópicos. OBrasil é um dos países que mais consome psicofármacos no mundo: estima-se que mais de 10% da população adulta utilizeregularmente antidepressivos, ansiolíticos ou estabilizadores de humor(Fiocruz, 2023). Esse cenário evidencia a importância de o psicólogocompreender os fundamentos da psicofarmacologia, não para prescrever (já quenão pode fazê-lo), mas para entender os efeitos eimplicações do uso desses fármacos no processo terapêutico.
A psicofarmacologiaestuda a relação entre substâncias químicas e o funcionamento do sistemanervoso central, investigando como elas alteram humor, comportamento ecognição. Na clínica, essa compreensão permite ao psicólogo reconhecer semudanças emocionais e cognitivas derivam da evolução psicoterapêutica ou dosefeitos dos medicamentos. De acordo com Kaplan e Sadock (2017), os principaisgrupos de psicofármacos — antidepressivos, ansiolíticos, antipsicóticos eestabilizadores de humor — atuam sobre neurotransmissores como serotonina,dopamina e noradrenalina, substâncias diretamente relacionadas à regulaçãoemocional e ao controle do estresse.
Embora a prescriçãoseja ato exclusivo do psiquiatra, o diálogointerdisciplinar é fundamental. O Conselho Federal dePsicologia (CFP, 2019) orienta que o psicólogo compreenda o papel dosmedicamentos na saúde mental, especialmente para interpretar possíveis efeitoscolaterais, promover adesão ao tratamento e favorecer uma escuta mais empática.Um profissional desatento ao uso de psicofármacos pode confundir efeitosadversos — como apatia, lentificação ou insônia — com resistência terapêuticaou recaída do quadro clínico.
A literatura científica tem demonstradoque a combinação entre psicoterapia efarmacoterapia costuma gerar melhores resultados do que o usoisolado de qualquer uma delas, especialmente em casos de depressão e ansiedade(APA, 2020). Por isso, o psicólogo precisa estar atento aos impactos dosmedicamentos não apenas nos sintomas, mas também na relação terapêutica: emalguns casos, a medicação facilita o vínculo ao reduzir a angústia; em outros,pode dificultar o acesso emocional, quando o paciente se sente anestesiadoafetivamente.
Além disso, compreender apsicofarmacologia permite ao psicólogo refletir criticamente sobre o fenômenoda medicalização da vida,em que questões existenciais e sociais são reduzidas a diagnósticos e tratadasexclusivamente com medicamentos. Estudos brasileiros têm apontado o aumentoexpressivo da prescrição de psicotrópicos entre adolescentes e mulheres,revelando uma tendência preocupante de transformar o sofrimento em patologia(Costa & Cosenza, 2021). O olhar psicológico deve, portanto, atuar comocontraponto ético, ajudando a contextualizar o sintoma e resgatar o sentidosubjetivo da experiência humana, sem negar a relevância da farmacoterapiaquando realmente necessária.
Outro ponto essencial é a formação continuada. Muitos psicólogos sesentem inseguros para abordar temas farmacológicos com pacientes ou equipesmultiprofissionais, temendo invadir campos médicos. No entanto, conhecer osprincípios básicos de ação, os efeitos adversos e as interações medicamentosas maiscomuns é parte da competência clínica ampliada. Universidades e conselhos têmreforçado a importância de disciplinas e cursos de atualização empsicofarmacologia, justamente para que o psicólogo atue com mais segurança epossa colaborar ativamente nos planos terapêuticos interdisciplinares (CFP,2023).
Compreender a psicofarmacologia tambémamplia o espaço para psicoeducação— ajudar o paciente a entender o sentido do tratamento, os limites e o tempo deação dos fármacos, fortalecendo sua autonomia diante das decisões médicas. Esseconhecimento contribui para reduzir estigmas e medos relacionados ao uso demedicamentos, promovendo adesão responsável e comunicação aberta entrepaciente, psicólogo e psiquiatra.
Vivemos um tempo em que o sofrimentopsíquico se intensifica e as respostas terapêuticas exigem integração. Apsicofarmacologia, quando compreendida pelo psicólogo, deixa de ser umterritório técnico distante e se transforma em uma ponte entre ciência, escutae cuidado. É por meio dessa compreensão que a psicologia reafirma seucompromisso ético com um cuidado integral einterdisciplinar em saúde mental — aquele que reconhece que osujeito é mais do que um conjunto de sintomas ou substâncias químicas, mas alguémem busca de sentido, equilíbrio e bem-estar.